• Lendas
Santo António e a Torrejana

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Zona: Torres Novas - Santarém
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José Joaquim Nunes (1859-1932), filólogo e académico de renome, publicou uma colectânea intitulada "Coisas Notáveis e Milagres de Santo António" onde se encontram narrativas dos mais ingénuos milagres do famoso taumaturgo lisboeta entremeadas de narrações fantásticas e de poéticas lendas. Relembramos uma dessas lendas que corre na região de Torres Novas com ligeiras variantes.

Conto-a tal como a ouvi, há muitos anos, numa tarde de soalheiro, em que as historietas e as malhas das lérias se entreteciam na voz mansa, temperada de saberes ancestrais, da minha Ti Zabel.

"Nunca te falaram da torrejana morta-viva? Foi no bairro d´Elbrom, perto de Torres Novas. Nos primeiros séculos do reino de Portugal. Governava el-rei D.Dinis. E a Rainha Santa, que tanto Ihe aturou, dava pão e consolo aos pobres e aos doentes.

Numa casa térrea, vivia em Elbrom uma devota mulher. Festeira de Santo António, patrono do seu bairro, sempre cumpria o que então era preceito de fé: ia a pé ao moinho mais alto da Vila de Torres Novas, cerca do cemitério.

Lá mandava moer farinha e, pela tardinha, regressava a casa. Cozia pão alvo que dava aos pobres depois da missa, na manhã de Santo António. Certo dia, acontecou-lhe, depois de isto cumprir anos e anos a fio, ir moer o seu trigo ao moinho. Já perto do cimo do cabeço, alevantou-se um vento tão bruto que Ihe deu na cara e depois a derrubou a ela e ao saco que levava à cabeça.

A mulher caiu de papo pró ar e, quando recobrou ânimo, tinha diante dela um mancebo formoso como um anjo divinal. A mulher pôs-se de pé num repente. O moço estendeu-lhe a mão esquerda e conduzia-a para um poço que havia perto dali.

Era um poço largo e profundo. Em vez de água, dele jorravam chamas tais que uniam a terra e o céu. A torrejana viu, do outro lado do poço, um rolo de fumo negro e pestilento. Ao mesmo tempo ouviu clamores de aflição e urros medonhos que vinham a subir do fundo daquele poço.

Temente dos castigos por seus pecados, a mulher encomendou-se ao seu santo protector que na manhã seguinte tinha festa e missa solene na igreja de Elbrom.

E, diante dela começaram a desfilar, num infindável cortejo de danados, homens de todos os ofícios e idades. Estampadas neles havia marcas dos vis pecados. E eram atentados e espicaçados por demónios pequenos e terríveis que os rodeavam como cães danados. Os mercadores vigaristas passavam carregados de sacos de dinheiro em brasa.

Os banqueiros e agiotas, logo a seguir, eram flagelados com grossas cordas de dinheiro a arder. Os ladrões e os assassinos, os adúlteros e os pejuros, e todos os demais homens pecadores desfilaram em frente da estarrecida mulher. A cada um, ela viu com seus olhos bem vivos, os demónios aplicarem castigos apropriados aos seus enganos e pecados.

Buscando força na sua devoção a Santo António, a mulher dirigiu a palavra ao jovem radioso que a acompanhava: - Diz-me, filho de Deus, que lugar é este? Sorrindo, paciente, o moço explicou: - Aqui, toda a alma pecadora deve eternamente padecer, pois o Inferno tu estás a ver!

Maior, então foi o espanto da mulher. Vozes chamavam homens que ela sabia estarem ainda vivos. Eram gente folgada da corte e da cidade. E sendo vivos, as suas almas já andavam na condenação infernal. Coisa tanto de pasmar! Mergulhada neste pasmo, dele foi puxada pela mão direita do mancebo que, de súbito, a fez subir a um lugar deleitoso.

No ar um perfume de rosas. Em redor, o verde e a frescura de um ridente pomar de belos e apetitosos frutos. No meio do bosque, uma branca tenda. No centro da tenda, um alvo leito de seda muito brilhante e formosura nunca antes imaginada. Em redor do leito, homens de resplandecente, beleza executavam uma dança suave.

Trajavam de cortesãos e todos estavam coroados de oiro e pedras preciosas. Bailavam aos pares, ao som de uma melodia celestial. De entre eles destacava-se um que parecia um esposo à espera da sua amada. E, ao fundo, a mulher avistava as ameias do castelo de Torres Novas.

Vencendo os seus receios de tentações demoníacas, a mulher inquiriu do seu acompanhante o nome daquele luger. Solícito, o anjo, pois de um anjo se tratava, garantiu-lhe que ela tinha sido eleita pelo seu Santo António para contemplar, naquele dia, o lugar da salvação e da glória.

E que visse e se deleitasse pois aquele postumeiro que parecia aguardá-la era mesmo o douto franciscano morto em Pádua. Nesta visão, tinha a mulher a recompensa da sua devoçao e da sua persistência no cumprimento da tradição.

Entretanto, como a mulher não regressou a casa, os familiares e os vizinhos puseram-se a procurá-la. Acharam-na branca e fria, estendida no chão, perto do cemitério.

Logo a julgaram morta pela tempestade e Ihe abriram uma sepultura. Mas, quando iam para a enterrar, pôs-se a mulher em pé e começou a contar tudo quanto vira nas suas milagrosas visões. O Padre escutou-a e mandou que fosse à capela de Elbrom e ali tudo foi escrito num pergaminho da igreja.

Esta lenda, passou de pais para filhos. O povo sempre manteve a crença em Santo António que naquela Vila de Torres Novas, que hoje é uma próspera cidade, teve um Convento de frades arrábicos, mandado construir no lugar de Liteiros pelo primeiro duque de Aveiro, em 1562 .

Por ser muito húmido e ficar longe do centro da vila, o fidalgo Antão Mogo de Mello e sua esposa, a cultíssima Sigéia de Velasco, (dama da corte da Infanta D. Maria), fizeram doação aos frades de uma terra no lugar de Berlé. Ali foi construído o novo Convento e a igreja de Santo António, com grande regozijo do povo.

Extintas as ordens religiosas, em 1834, perdurou ainda a devoção e o topónimo, pois àquele lugar se começou, desde então, a chamar de Santo António.

 
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