• Castelo de Mafra
 

Castelo de Mafra
Mafra - Lisboa

O Castelo de Mafra, ou o que dele resta, ergueu-se provavelmente sobre um povoado neolítico, sucessivas vezes reocupado até à Idade do Ferro. Os achados ocasionais realizados no interior do perímetro quase oval da antiga fortaleza e nas suas imediações demonstram a existência de um relativamente modesto aglomerado romano que sucedeu ao oppidum indígena e se incluía no âmbito administrativo do Termo de Lisboa.

Que razões motivariam a tomada de Mafra aos muçulmanos em 1147 (entre 18 e 28 de Junho, conforme opinião expressa por António Vitorino França Borges), se não era posição fortificada ou não tinha importância? E se a não tinha ou não o era, por que motivo Mafra é citada pelos cronistas enquanto outras terras do Termo de Lisboa, mesmo de maior envergadura, igualmente subjugadas, são omitidas? Que Mafra foi vila murada é ponto assente, que inúmeros documentos vêm atestando desde o século XII. Não seria, certamente, uma praça forte de primeira categoria.

O humanista André de Resende chega a chamar-lhe oppidulum, donde se conclui que seria almenara de dimensões modestas, embora de alguma importância, quer pela função semafórica que desempenhava, quer devido à quase equidistância a que se achava relativamente a Sintra e Torres Vedras. A antiga Mafara encontra-se implantada não numa cova, como insistem alguns observadores pouco atentos à paisagem, mas, isso sim, numa colina flanqueada a Norte e a Sul por dois vales onde correm outras tantas ribeiras, conhecidas, respectivamente, pelos nomes de Rio Gordo e Rio dos Couros.

É provável que a configuração orográfica actual, à excepção das produzidas pela erosão e, eventualmente, pela actividade agrícola, não tenha sofrido alterações de monta desde a reconquista. A cota mais elevada ronda os 200 metros de altitude, situando-se a cerca de 30 metros a nascente da cabeceira de Santo André, no terreno onde a Santa Casa da Misericórdia de Mafra instalou a sua sede. Quanto ao recinto do castelo, que corria no sentido da igreja de Santo André, isto é, entre nascente e poente, ele compreendia toda a zona da Vila Velha que hoje se inclui no interior do espaço delimitado, a oriente, pelo Largo Coronel Brito Gorjão (vulgo da Raposa), a Sul, pela Rua das Tecedeiras, a ocidente, pelo Palácio dos Marqueses de Ponte de Lima e, finalmente, a Norte, pela Rua Detrás do Castelo.

A Rua do Meio, antiga do Adro ou Direita, que se desenvolvia de nascente para poente, ligando a Porta da Corredoura, no actual Largo Coronel Brito Gorjão, a um possível postigo ou Porta da Traição que se rasgava na cortina Sul (e de cuja calçada parecem subsistir os vestígios), constituía o decumanus maximus da povoação, enquanto que a Calçada da Porta da Fonte da Vila, de Norte para Sul, correspondia ao cardo maximus. O poemerium, área contígua à muralha e obrigatoriamente desimpedida de construções está na origem das Ruas das Tecedeiras e Detrás do Castelo, no exterior dela, e, interiormente, dos quintais de que ainda se acham exemplos.

A localização da alcáçova e respectiva torre de Menagem ou albarrã, de cujo desmonte poderá ter resultado a bizarra torre sineira de Santo André (talvez edificada no século XVII, demolida em 1907), apoiada na cabeceira da Igreja, funda-se em pura conjectura, apesar de tudo, inspirada na afirmação constante no manuscrito de Nery Gorjão de que "o castelo [a alcáçova?] de Mafra era contíguo à paroquial de Santo André". A ser assim, a Santa Casa da Misericórdia terá substituído sobre a cota mais elevada o último reduto da fortaleza.

A Rua do Adro ou do Meio nascia sensivelmente no mesmo lugar onde hoje desemboca no Largo Coronel Brito Gorjão, ligando-se à antiga Corredoura por uma porta, talvez ladeada por dois cubelos que a defendiam e de que as paredes, medindo cerca de três metros de espessura, das traseiras da vivenda, entretanto demolida, do Senhor Rogério Lucas da Silva, constituíam um sólido indício (a pedra que dali saiu serviu de entulho para a terraplanagem do campo de futebol do Clube Desportivo de Mafra).

Esta porta dava acesso à estrada de Torres Vedras e às do Alto da Vela e da Arrifana, que conduzia a Alcainça e Abrunheira. Embora apenas parcialmente, o alçado Sul foi o único que conseguiu sobreviver ao desmonte sistemático a que a cortina foi submetida com o objectivo de angariar pedra para outras construções.

Uma explicação plausível acha-se, decerto, na necessidade de conter as terras que preenchem o acentuado desnível (perto de 8 metros) entre as Ruas do Meio e das Tecedeiras. De resto, por esse exacto motivo, após a derrocada (Novembro de 1937) da muralha que sustinha o ex-quintal do Sequeira, de imediato se procedeu à sua substituição pelo paredão sobre o qual assenta o Miradouro.

O lanço de degraus que une o Miradouro árua, em baixo, sucedeu com alguma verosimilhança à calçada do postigo ou Porta da Traição, cuja existência é indispensável ter em consideração para viabilizar a extensão que o arrabalde viria a assumir naquele flanco do castelo, O postigo ou Porta da Traição dava acesso a dois caminhos: um por Quintal e Montesouros para o porto da Carvoeira e outro por Malvar e Sobreiro para a Ericeira e Paço de llhas.

A muralha, substituida pelo paredão (1942) prolongar-se-ia primitivamente até a um torreão situado a poente. No espaço compreendido entre aquela (a muralha já aí não existia ao tempo do Senhor Nery Gorjão, pelo que ele se serve como referência da "ermida da casa chamada do Capitão-mor";, igualmente desaparecida) e a fachada do Palácio dos Marqueses de Ponte de Lima foram encontradas, em 1790 (quando "se abriu ou alargou o caminho que conduz à quinta da Roussada"), umas tulhas subterrâneas, em barro que se destinavam ao armazenamento de cereais. O alçado poente seria o mais facilmente defensável devido ao desnível originado pelo esporão ou esplanada em que se alcandorava.

Era, por conseguinte, o mais adequado à instalação de um Paço acastelado, como aquele que existiu, desde pelo menos os tempos em que D. Fernão Martins Coutinho foi donatário da Vila (séc. XIV) e sobre o qual o palácio dos Marqueses de Ponte de Lima deve ter sido erguido. É muito provável que o torreão poente do castelo ou parte dele, subsista na fachada ocidental do palácio, de confuso recorte arquitectónico.

A designação Rua Detrás do Castelo advém do facto de a povoação ter voltado, literalmente, as costas ao flanco Norte por ser o mais exposto aos ventos dominantes. A cortina, beneficiando do perfil mais elevado do terreno, seria ai mais alta, protegendo da nortada a povoação interior, dirigida para o Sul e para o sol, como acontece, por exemplo, com Óbidos. A densa floresta que, consta, existiu até ao século XIX na Quinta da Cerca, constituída por árvores de enormissimo porte, reforçaria tal paravento.

 
 
 

 

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